quinta-feira, 22 de abril de 2010

Caminhos de Sarita

Sarita tinha diante de si mais que dois caminhos. Além do caminho certo e do caminho errado, tão comuns a todas as pessoas, ela tinha também um outro ao qual ainda não tinha dado nome. Essas três alternativas, que formam um só problema, surpreenderam a pequena Sarita às 7 horas da noite de uma terça-feira trabalhosa, ocupada, estressante. Era um telefonema. Seu noivo, que a esperava em outra cidade, foi chamado para o emprego dos seus sonhos, no país dos seus sonhos, longe, muito longe – como sempre – do que Sarita imaginava para si (e para ambos).

Ao desligar o telefone, ainda no seu trabalho, ela se deteve por 30 minutos a observar a parede. Era o limite. Limite de tudo, limite para si, para seu ego, suas asas. E foi aí que Sarita vislumbrou os seus caminhos, que a deixavam sem respira. Ela voltou para casa, tomou seu banho pensando no significado de tudo aquilo; comeu, bebeu, assistiu TV com tudo aquilo na cabeça… e não dormiu.

Ainda antes das 3 da manhã, pensou mais firmemente no seu caminho errado. Como normalmente acontece, esteve mais tentada à escolhe-lo, a escolher seu antigo amor, caminho aberto desde sempre, reafirmado todos os dias. No mesmo ser, mas em outra pessoa, ela encontra sempre o seu noivo. Juntos desde a infância, é fato que eles se amam, que se querem, que se têm. Mas Sarita não sabe disso, ou melhor, não tem consciência, assim como ele, que com o tempo tomou uma névoa em seus olhos, deixando de enxergá-la com a paixão de antes. Acostumou-se, a bem dizer.

Sabia que era errado o caminho porque não era possível ter seu amigo de infância de volta, nem mesmo sua própria infância voltaria. Partir para isso seria partir para o fim, certamente. Mas o caminho certo também não tinha graça; nem amor. Sim, era o melhor para si, para ter a sua vida com conforto e estabilidade… mas Sarita não queria isso! Sarita queria desvendar o que sentia, e fazer desse sentimento o seu futuro. Era mesmo o limite, e dali trilharia novos rumos.

Foi então que ela sorriu, de um jeito meigo e infantil, ao observar suas mãos. Seus dedos leves, delicados, sensíveis ao ar que os cerca, nunca haviam feito tanto sentido para a menina Sarita. Olhava a liberdade de cada um, o movimento sincrônico de cada um, a forma de cada um. Seus braços livres no ar, suas pernas, seus cabelos, seus olhos… Então uma lágrima escorreu pela sua face, às 3 da manhã, sozinha no sofá. Assim, olhando seu corpo, sua representação no mundo, Sarita escolheu o terceiro caminho, que seria o seu caminho. Daí a emoção: pela primeira vez em tanto tempo a menina pensava em si, e fazia escolhas para si.

Três anos depois, ainda em fuga dos outros e na procura de si, Sarita perceberia na sua platéia a figura do seu amor, já antigo, que sorria com certo tipo de orgulho (ou paixão, talvez). Não pensou em nada no momento, apenas sorriu também e seguiu com sua palestra.

(mio pascuotte)

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